Governo edita medidas para dar protagonismo a catadores de recicláveis
Presidente Lula recria Programa Pró-Catador
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira
(13) decreto que institui o Programa Diogo Sant’ana Pró-Catadoras e Catadores
para a Reciclagem Popular, uma atualização do antigo Programa Pró-Catador,
extinto em 2020. O objetivo é colocar novamente os catadores como atores
centrais na cadeia de reaproveitamento de materiais recicláveis e reutilizáveis
no Brasil e realizar uma mudança no modelo atual de economia circular e
logística reversa do país.
Lula também assinou decreto que revê conceitos da logística
reversa, que revoga o programa Recicla+, lançado no ano passado, e institui
três novos instrumentos: o Certificado de Crédito de Reciclagem; o Certificado
de Estruturação e Reciclagem de Embalagens em Geral; e o Crédito de Massa
Futura.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina
Silva, destacou que os catadores fazem a parte mais importante e mais difícil
do gerenciamento de resíduos, “coletando materiais nas ruas, em pontos de
coletas seletivas e até mesmo em circunstâncias bastante penosas e
inaceitáveis, como é o caso dos lixões”.
“Graças ao trabalho deles é possível que grande parte dos
resíduos retornem ao ciclo produtivo como matéria-prima, diminuindo a emissão
de gases e evitando que sejam depositados em lixões, contaminando o solo, a
água e causando doenças”, disse. “Ao mesmo tempo, fazer apoio a esse segmento
da sociedade é um benefício social, ambiental e compromisso ético e político de
cuidar do meio ambiente ao mesmo tempo em que se cuida das pessoas”, completou.
Segundo Marina, os dois decretos trazem instrumentos que
possibilitarão aos catadores receber um adicional à renda. “E que esse
pagamento possa ser feito de forma a que o catador não tenha que ficar
dependendo apenas daquele que vai comprar o seu material, porque antecipadamente
ele já tem esse direito como se fosse espécie de crédito pelo trabalho que
presta”, explicou, sem detalhar a medida.
A ministra destacou ainda que dar protagonismo à classe dos
catadores é uma forma de combater o racismo ambiental. “A maior parte das
pessoas que trabalham com materiais recicláveis são pessoas pretas, sobretudo
mulheres chefes de famílias, que são obrigadas a buscar essa alternativa para
poder sobreviver”, disse. “Por isso, quando se faz políticas públicas que
restauram a dignidade, que os tratam como profissionais, que os remuneram para
além dos materiais que são coletados, mas pelo trabalho que prestam de serviços
ambientais à comunidade, é uma forma de combate o racismo ambiental”,
ressaltou.
Apoio financeiro
Os decretos foram elaborados por um grupo técnico de
trabalho coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência da República. O grupo
contou, ao longo de 12 reuniões, com a participação de representantes das
cooperativas de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis e do setor
empresarial que atua na política de logística reversa, além de membros
convidados de oito órgãos governamentais.
Para o ministro da Secretaria-Geral, Marcio Macêdo, os
catadores realizam um serviço de utilidade pública de preservação ambiental e
não podem estar no mesmo patamar que empresas e cooperativas de catadores na
cadeia da logística reversa, que tem tecnologia para processar os materiais.
Ainda assim, segundo ele, é preciso “reconhecer o papel das empresas na medida
correta da sua contribuição, da importância da reciclagem para alavancar a
economia”.
“O novo decreto reconhece o papel das empresas, recoloca os
atores centrais do processo de reciclagem no seu devido lugar, ajusta os
mecanismos da logística reversa para que catadores, individualmente ou em
cooperativas, possam continuar exercendo sua profissão com dignidade”, disse.
Segundo Macêdo, as instituições financeiras - BNDES, Caixa e
Banco do Brasil – se colocaram à disposição para criarem medidas indutoras e
linhas de financiamento para execução dos projetos do Programa Pró-Catador para
reciclagem popular, para dar iguais condições de se tornarem empreendedores nas
mesmas condições que a indústria. Entre os projetos, ele citou construção e
ampliação de unidades de recuperação de recicláveis, aquisição de equipamentos
e de veículos para coleta e transporte de materiais.
“É fundamental ter apoio financeiro de implementação de
projetos de coleta e reciclagem, contemplando intervenções que visam contribuir
para aumentar postos de trabalho e capacidade de beneficiamento dos resíduos
passíveis de reciclagem, bem como melhorar as condições de trabalho e renda dos
catadores”, disse Macêdo.
Monitoramento
Os decretos também instituem o Comitê Interministerial para
Inclusão Socioeconômica das Catadoras e dos Catadores de Materiais
Reutilizáveis e Recicláveis. O órgão terá como objetivo a coordenação, a
execução e realização do acompanhamento, do monitoramento e da avaliação do
programa.
Ele será formado por representantes de 15 pastas. Da
Presidência, integram a Secretaria-Geral, a Casa Civil e a Secretaria de
Relações Institucionais, e os ministérios da Justiça e Segurança Pública;
Educação; Saúde; Trabalho e Emprego; Meio Ambiente e Mudança do Clima;
Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; Cidades;
Planejamento e Orçamento; Gestão e Inovação em Serviços Públicos; Direitos
Humanos e Cidadania; Mulheres e Igualdade Racial.
Os trabalhos serão coordenados pela Secretaria-Geral.
Homenagem
O Programa Pró-Catador foi criado durante o segundo governo
do presidente Lula, em 2010, e reunia ações de apoio a trabalhadores de baixa
renda que se dedicavam a coletar materiais reutilizáveis e recicláveis. Em
2020, o programa foi extinto e, agora, com a recriação, será rebatizado.
A pedido dos catadores, receberá o nome de Diogo Sant'ana,
em homenagem ao advogado e professor que, em 2010, foi responsável pelo
programa no âmbito da Secretaria-Geral da Presidência. Ele faleceu em 31 de
dezembro de 2020 aos 41 anos de idade. Além da Secretaria-Geral, Diogo Sant’ana
também trabalhou no gabinete da Presidência da República e na Casa Civil
durante os governos de Lula e Dilma Rousseff.
“Pessoas que têm um coração do tamanho do que o Diogo tinha não morrem nunca”, disse Lula durante seu breve discurso. “O corpo vai embora, mas os ideais do Diogo estão perambulando aqui na cabeça de cada catador e catadora”, completou.
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